sábado, 30 de março de 2013

A Palavra é Livro ( publicado no Jornal das Artes)


A Palavra é Livro

Por Djine Klein
I.
O livro. O desesperado livro nas mãos. Abrir a porta e que as palavras da página espiam... Quem vem lá? Aquele o livro liberta tanto umas mil vozes de silêncio e pede – escute-me bem com olhos. Do autor – escapa o pensar aprisionado no excesso de criatividade, ele só fala em língua de poesia. Antes ressalta o impossível, depois refresca memórias e arde no ledor uma narrativa onde cada palavra diz o mundo inteiro, desde o “Antigamente”.  Encaminhando com carícia, mas às vezes de tanto dizer coisas de humanidades as palavras ferem-lhe. Acontece então o extravio da razão, ou alguém acha o que nunca ninguém tinha perdido. Em essência estás sendo fisgado para bordo de um barco. No fim da viagem retira-se o poeta, fecham-se as páginas e você fica com a sensação de plenitude, um contentamento como um felino adormecendo o Sol... Ou ave com pena de se voar dali as páginas, talvez apenas um remo, convencido que estás de ser um objeto lírico nas mãos de um velho Griô. E agora que já conheces a verdade, toda uma longa narrativa pode ser cada palavra ou frase um absoluto poema. Então já não poderás aceitar uma qualquer literaturas, somente se for a experiência um deslizar sobre águas transparentes com fino azul no fundo. O livro pode ser “Estórias Absonhadas”, o poeta Mia Couto - um africano transparente até nas nervuras de ser África.

Quando a poesia se cansa de ser verso é assim, o mínimo verso dentro dele uma fábula, um conto antigo de acontecer no agora. Nessa arte poetas escrevem muitos desassossegos que até parece que todos miravam os seus. Eu até fazia um contrapelo de paz, abrem-me outras janelas, entrevejo suas asas e peço um estímulo para as próprias minhas me voar. Mas acontece outros assombramentos, foi um desviar o destino não escrevi - Mariamar ela bate em minha porta, o livro do alento “A confissão da leoa”. Outro dia, antes me atingiu uma tarde de tédio teimosa de não passar, Mary Bloom surgiu na janela e eu que dedilhava a Odisséia no momento fique abensombrado. Depois quis caminhar outra paisagem, chamei o fiel companheiro para passeio nos mais longes do quintal, Diadorim espreitava de uma moita. Ao entardecer daquele e outros dias pirilampos “absonhados” acenaram-me lanterninhas... Eu já era uma criança antiga batendo na porta de alguém que logo reconheci. Anulava-me todas as farpas com um me olhar com ternura. A criatura uma mulher que tanto antevi para ser a mãe do caçador. Devolvi o bodoque, as duas hastes do estilingue agreguei cataventos. Então chamei pra rua todos os meus fantasmas porque e ainda não eram arte em biografia inventada?...
E os livros? Quem leu que nos diga o seu exaspero.


II. Poetas prosadores

 É difícil dizer o que acontece com alguns poetas. Pensava, mas se descobrisse a fórmula, se desvendasse o segredo! E tanto quis ser assim escrevinhador, encher páginas e mais páginas, e como eles nunca perder a novidade, a palavra sempre nova e antiga ressaltando verdade dos sentidos.
Sempre me rendo aos contadores de histórias, mas para os (des) inventores de gramáticas estou de joelhos. Narrando cantam a estória desliza - fazem a crônica com versos sublimados. Inventam para desvendar nas palavras o que nunca se viu, te botam num estado de aflição que nem sei. Ou é lamber as últimas palavras da narrativa com os olhos já roçando os princípios daquele mesmo texto. Até acho que nesses autores a escrita é mais um rodopio, ou banho de chuva e que eras tu a criança brincando. Sopram eles em tua alma ar azul e, um fogo arde inserir palavras recém inventadas em ledores distraídos.
Desconheço a África de Mia Couto, mas a sinto inteira na sua narrativa e sempre estive lá, da escrita ao ardido daquela terra longe. Também não sei o Pantanal, mas meus pés já sabiam alguns alagados que Manoel me refresca. O Sertão era apenas duas palavras esperando o complemento, Sertão? Veredas, entrementes Rosa reinventa aquilo tudo com poesia de doer belezas até em bravio jagunço.  E Odisséia! Agora pode ser apenas um dia de tédio, não como antes os heróis brincam de guerra. E desinventor do Clássico ousa Joyce. Os livros dos citados deliradores são – Arte de fino trato – que confirme quem soube ler.
E os adjetivos - Mia sopra neles com os pés descalços, viram personagem gente. Joyce engendra a palavra cheia de distância, você olha e diz que é difícil, olha outra vez com vagar e salta uma odisseia por palavra.  Rosa é a terra em transe, o leitor agoniado com pés descalços na página atravessando aquele árido todo. Mas com Manoel a alma descansa, nunca mais que te salva de ser girino, um cisco ou seixo, assim que eras o menino visando o mar atrás da casa, numa tarde sonolenta e silêncio de gente grande. E o quarteto fantástico - escreveram como se quisessem carimbar imagens em nossa memória, e que nem o tempo escrevendo desmemoria apaga a vontade de (re) conferir aquelas paisagens pintadas com palavras sempre frescas e chamas.


III. Livros
O Livro. Não importa se o livro é reluzente de novidade ou se edição antiga de ter sido garimpada em tesouro empoeirado. Não vendemos livros. O seu livro abarca um algo qualquer ou coisa que pensas ser especial? Quer contar/escrever sobre um livro? Se nos escrever como pensam os apaixonados, o texto se for sobre a arte da palavra e não pretender verdades (nos conformamos com ensaios) pode parar em página do Jornal de Artes.
Então diga antes, diga logo, antes que outros se animem e cheguem antes. Escreva-nos com loucura sobre um apaixonante livro. Escreva-nos embriagado. Revele-nos O Livro ou vários. Apresente-nos personagens em carne de palavra, antigo de pena ou recém pisando a terra da página.

O bom livro é sempre assim, primeiro tira do prumo, perdes o chão, mas depois da escola que tem dentro adquires juízo. Eu nunca aceito uma brochura que não tenha na orelha um par de asas. Isso é de necessidade que ás vezes as minhas ficam cansadas.
 Escreva-nos sobre o livro que mais lhe deixou impressão e, que nem o tempo apaga a Cicatriz.A Palavra é Livro


domingo, 25 de novembro de 2012


Biografia Indigente (em três atos)
Djine Klein

I.
Atenção! Isso é para que as pessoas humanas se previnam contra a minha pessoa. Essa exata pessoa que sou louca. Lunática de iras e uns silêncios necessitados. Contudo depois que a boca cresce para dizer as palavras da noite, solidão. Em transe ou afoita na arte que pratico poesia, algumas feras da confraria a que despertenço - irisadas de fúrias.
Minhas paixões os prazeres no palco e que tanto cismam contra. Ninfa personificando todos os elementos que a carne assume. E eu lhes grito essa verdade crua dos sentidos. A visão era eu num bosque correndo e que as vestes abandonadas junto um lago, os longos cabelos mal ocultando os seios nus.
E os sátiros?... Há sempre a outra face do ser gritando para romper o espelho que a reflexa. Da noite uns pios fascinam a ave oculta, então é se deixar correr até que na orla da escuridão à fímbria do dia anunciando um pouco de luz.

II.
Sim, existe o outro, um bicho e o outro lado para cada face, donde a fera uiva, as garras rasgam peles brutas e cruéis em resistência. Contra as muitas mortes, espreitando a sombra em quase desespero, todavia sou aquele animal de ternura, assustado camuflando-se sob a própria imagem.
No espelho o reflexo, um narciso se mira, todos sabem e os outros que ainda mentem a sombra desse mesmo olhar. Mas sempre também tímidos e assustados. Como eu, eles quando olhos iluminam suas imperfeições, é devolver a faísca dessa luz num raio e lâmina de arder para todos os lados.
Uma febre que consome ossos, esses antes eram brancos, agora vermelhos como o fogo. E meu corpo exposto às chamas da inquisição - afastem-me a palavra abandono.
Eis que percorro sozinha a áspera vereda e que a trilha que consola é aquela desenhada pelos próprios pés. Minha noite invidiada carrego sozinha em silêncio orgulhoso. Adiante tenho amparo no canto de uma ave indiferente a qualquer dor.
Ah, boca de pássaro é bico em que as palavras pensadas se melodiam para consolo das gentes de coração absurdo. E o meu tem asas, mas que as penas são punhais...

III.
Isso me ocorreu no dia em que tentava regressar ao princípio de tudo – um ventre de mãe quando a mulher tece mais um andarilho para as estradas do mundo. Afastar-se-ão esses meninos e sem memória, um pai ausência em navegação extraviada no tempo. E o que sobra para as vozes de amor! Nunca consola só o vento grave no rosto e olhos vidrados de espera...




sábado, 18 de junho de 2011

Pra dizer que falei de amor


             
 
O desejo no homem não dá trégua e não há disfarce que possa ocultar tanta ânsia. E quem não era de ter um desarvoramento sobre o corpo amado!
Só o soberbo nega-se ardente e não recorre ao suicídio para apagar tamanha covardia.
Quem pelo gozo não quis amar como os loucos! Com a sede dos lunáticos, o amor nos doidos nasce mais lúcido. Ama-se em rebuliço para dar distração aos áridos.
E quem vê como sacrifício alongar os braços para o encontro de dois corpos, se amando em estreitamentos... Este não sabe reconhecer os anseios da própria carne e se mente.
Eis que teatrar o vício do amor ardido pode reduzir o abismo em tempo de separação. E que têm olhos sábios os que acalentam os próprios sustos junto aos desassossegos do Ser.
Todavia sei que é lícita a conjectura de que amar com escândalo é crime, mesmo sendo o desvario a mando do coração. Mas quantos são os que amam de amor e seu contrário no mesmo ato se não os enluarados?
Eu sempre digo sim aos convites dos olhos de meu amado e devolvo o chamado com faísca de pupilas. E me prático uns sorrisos só para ele, depois as impressões de mim nele, ele explorando minhas dimensões e guardo tudo para o livro de sacramentos.
Hoje logo despertei ocultava uns restos do sono atrás das pálpebras e me dizia: chega de decifrar navalhas, que isso é exercício para os esquivos. Ou será que por timidez não sustentava o amor com riso? Será que me ficava à sombra com olhos à flor do corte! Por medo?
Mas se eu penitencio os que falam de seus amados com distraimentos!... Eu por exemplo, só me quero como louca de pedra, uma vidente anunciando o amor, livre dos juízos.
Serei eu na Ágora a falar do AMOR como os grandes de ROMA. E sendo para o meu amado de uma loucura aflita em irisado gesto de poesia só por ele.
E tenho que quando me chegarem com injúrias, suavizaria a máscara respondendo a ofensa com um truísmo. Com olhos em inclinação de modéstia sou de ofertar uma rosa ou assemelhado susto a meus algozes.
Os espinhos... Deixo-os oculto no grito interior: nunca mais farei escândalo quando descobrir que me enviaram um arpão oculto num lírio.
Sim, eu terei toda a coragem que não tem um exército inteirinho de desiludidos. Em toda essa lida de amar com gosto-mel e flor-pele descobri que de salto em salto as auroras hão de atingir-me em cheio. 
E meus dias antes escritos com puro grafite, agora as palavras registram-se luminosas por mim. E ele... É o meu bsoluto Sol.
               

segunda-feira, 13 de junho de 2011

As crueldades da meninice...


Crônica do Brejo

Sapir é espesso de vida. Sujo de barro
E nuvem. Mas plenamente concebível
Se o objetivo do herói for susto em namorada.

Periga Sapir colher gorjeios. Põe fito em espelho d`água
 (quase anuro) se vê ave. E têm seus dias Pedregulho
                                                Ou alcaparras de asas.

        O pobre nem se quer desconfia do destino:
 - Uma desgraça! Ser escória no brejo!

À noite (Sapir) se banha de luar. Faz cantoria
Mira o céu e tem espasmos. É quando a Coruja-Pia
                      Sobrevoa seu reino de seda.

No encharcado Sapir foi flechado de luz.
Lerdo espanto erra o salto. Foi.
 E virou isca. Para menino em-dia-bravo
É só mais um sapo no muro.
Planificado!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Manezinho Galego e o Caracol


   Sempre gostei de dar voz a coisas e criaturar, principalmente, gosto muito de imaginar um jeito muito próprio de falar para cada ser.Ou entidade?

                                                         
“Era um ente irresolvido entre vergôntea e lagarto. 
Tordos que extrema desterro sentavam nele". 

                                Manoel de Barros
                                         
   
                                                                                                 

Era só mais um dia desses, mata-léguas que sou, estava um pouco carrancudo. Sei lá, sei não - um aperto no relógio do peito.  Um algo atravancado no gogó! Mas isso de se sentir só é parte, é coisa da arte de um bom viver. Pois que tenho o oficio das trilhas: sou vaga-mundo! E o Mundo sabedor de me saber em seu pedregulho mais miúdo.
Sou... De despertar passarinho, no café bebo paisagem. O mundo de que preciso... Ah! este me chama pelos pés. E não vão ser umas caraminholas que vão me desviar do roteiro. A vida me botou incumbência:
- Vai, Manezinho Galego! Marcar com as tuas pegadas as minhas distâncias... Disse ela, a Mãe das Criaturas e obedeço.
Foi aí que tropecei no vivente. Reticente, é caracol! Solidade -  assim burro quando foge, a sua cor. Inquietava-se em um relato naquela data. Mas ninguém entendia nada. Hoje tem a coloração das levezas.
Do encontro comigo teve-o a princípio como insídia e foi logo dizendo:
- Sou vira-mundo de destino. E explicou: que pena amigo, eu estar assim, nessa palidança.  Ah!... Queres um pouco de água da fonte? Tenho aqui umas cerejas!
- Deixe pra lá esta gastronomia e conte logo tuas andanças.
- Sou um só, mas antes era dois que eram um. Gostava de viajar... Tenho uns parentes no mar... – Quer alecrim?
- Deixe de disquisições, quer assustar meu juízo? Conte tudo e não enrole.
E foi o caracol desenrolando-se em um  palavreado, entrecortado de estórias e ervas perfumosas.Contava de seu destino uns dramas.
- O fato amigo, é que naquele dia passou por mim um tipo cenhoso: Jacinto com manjericão? Hum..., isso me faz flutua... Minha essência favorita e a sua? – Mas, mas como eu ia dizendo seu moço, o tipo esse, cendrado dos bigodes às unhas dos pés. Feito um matabelê, fugido de um tempo lá dos atrás, me aplicou um cangapé!
- Mas que pérfido. Miserável! Isso me aborrece de horror, cruelinjusto.
- “Isso é uma lesma, que nojo!”. E vi o mundo rodar...

Eu fiquei por ali pensando. Será que foi aí que teve início esses caracoleios? Mas é certo que ia levando a vida com graça e sem pressa. Até admito que tive uma pitada de ciúme. Eu que às vezes sou tão pesado e aflito! Mas O lá de arriba há de me perdoar!
E continuou... Disse que ama as fontes. Diz fonte e suspira. A palavra inverno lhe dá calafrios. E digo mais, se parece com Jô-Estrela, Juvenal meu amigo, tem umas de muitos tempos datas.
Desde aquele encontro até hoje estamos amigos. Foi morar lá em casa. Pegou gosto pelo jardim e pôs ponto final nas andanças. Mas sempre que saio pra lida, o Zé me pede um girassol.
Pero, já rodei muita estrada... E nada de encontrar esse carrossel de beija-flor. E como volto de mãos vazias, ele me acusa de ser relapso a seu afeto. E até acusa a si mesmo de ser um minúsculo, coisinha de desimportânca. Ah, isso ofende o meu bem-querer. Foi então que fiz uma proposta:
- Te dou uma rosa verde e faremos um de três!
- Caramba! Ce, cê... Cê tá falando sério?
Foi da palma da minha mão com asas que nunca vi a quinta dimensão e voltou pra me dizer:
- Esse, esse é! É... É o dia mais feliz de nossas vidas, não é Mané? Foi dizendo o Zé e repetia-se, fazendo dança de caracol.
- Caramba! Agora digo eu: o mundo está de caotizar... Não é que nesse momento me apareceu um desgranido! Abana a minha cara com uns míseros caraminguás. Pensa que é só chegar e levar o Zé da Rosa.
- Cai fora coisa ruim. Aqui o que um dia foi micro-afeto, hoje é história de amor-afetado. E de tontos amares por esse mundão.
E o caracol se absorve todo em ter protetor:
- E olha, que nem sei lhe dizer do tanto bom que é ter amigo: andar mais sozinho, não! Mais ser eu e o Mané, passarinhos... que temos os dois  companhia de amizade grande.


                                   
                                                                  

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Hipótese da Corujina


Estou criando uma corujinha, encontrei-a recém nascida com a asa quebrada, hoje é linda companheira e gosto de observá-la quando chega o sono: faz esforço para manter-se, os grandes-lindos-olhos abertos, me olhando... Fico boba, boba de ver aquelas pálpebras caindo lentas... Será que me leva nos sonhos?



- O Mundo só pode ser uma brincadeira. É na dimensão dele que se vibra por sustos. Mal amanhece pinta nos meus sentidos tremenda confusão: a vaca chora feito bezerro, quer doar leite por doação. Um cão late longe pelo preá suspirando o primeiro rainho de Sol. E o guri da família com restos de noite nos olhos, diz: 

- Hoje escola, não! Mãeeeee.

- Em oficina o jardim até que tenta calmaria, mas as flores todas, umas frisando os vestidinhos, outras se furtam por furtar arco-íris do céu. Desde a madrugada têm as que se perfumam para amanhecer mais aptas à beija-flor.

- E os insetos? Do muito que estimam a loucura do arco-flor-íris, praticam-se lhes todos os absurdos das formas e cores. Mas isso é o algo do caos o que mais me encanta: ViviBela! Por sabor de paladar insetos me apetecem em muitos e tantos, desde o princípio das duas metades do dia.

- Passarinho? Porque também sou um e hoje não estou muito bem pra algo sobre dizer... Hum! Ai, que sono!

- O Mundo em definitivo, não pode ser coisa de se levar muito em sério? E há pouca perfeição nas coisas em acontecer lá nele. De olhos grandes de observar sou boazinha, em ver tanta coisa do Mundo em silêncio meu para uns lá dele. Até sei as urgências do sol lá fora, mas é tanto sonho pra dormir comigo e sonhar. Ô Mundo bem grande! Faz, faz silenciozinho. Mais tarde você brinca brincar jogo amarelinha comigo.

- Hum! Também há esses, os bichos e cigarras zunindo... Cavalos e lagartos pra brincar correndo. Tem gente e gato, bem-te-vis e sabiás. E pato. As galinhas do quintal, um pavão se exibindo pra todo mundo.

- Ai! Sinto-me a cabeça zoeira e o dia ainda vai longe pra dormir. Mas quem dorme com um barulho desses? Se assemelha um pica-pau nos meus ouvidos.  

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Soli(ci)tude


                               

I.                   Atrás de minha casa há um manancial. Das samambaias brotam sapos e brejos e as águas fazem córregos sob meus pés. Mas quem há de entender os lagartos? Quem de olhos-coruja espichados como os meus, espojando-se nos beirais da mata, onde araquãs fazem chuva e outras desimpotâncias de alumbrar os extremos de meu dia.

- Corre menino! Corre ou não verás o preá brincando de esconder-se no capim da estrada.

Os ventos nesta paisagem chegam pelo lado esquerdo de quem assiste: eu estremeço só de pensar nas cantorias das aves ao amanhecer... São de asas o que te escrevo, menino!
Quando vir um bem-te-vi cuida que um sabiá te espia. Então espicha a língua e deixe-se embriagar pela gota de rocio. E mais esse dia passarinho em teu pequenino corpo.

- Corre menino! Corre ou não verás o preá brincando de esconder-se no capim...

Da lesma um caracol faz velocidade eternal e é em tardes como essa que até andarilho assume cheiro de flor. De caracol o último que vi esculpia a rosa verde que pensei.

- Corre menino! Corre ou não verás o preá brincando de esconder-se...

II – Tenho tantos medos pela infância de minha rua, menino! E não sei por quanto tempo ainda terei dedos nos olhos para apalpar a  voz das rãzinhas, o salto dos gafanhotos em meus sustos. As travessuras dos sebinhos, briguentos e mel...

- Corre menino! Corre ou não verás o preá brincando...

O primeiro ensaio da cigarra anunciou que se aproximava o verão. Mas sob a máquina o homem é vil e desaprende rápido o gosto que dá as florescências de cada estação. Peça-lhes menino que nos devolvam a Flor.

- Corre meninos! Corre ou não verás o preá...

III – Há noites tenho insônias e se durmo assaltam-me pesadelos: um chão monturo, meus pés descalços e sangrentos em terra árida.                 Brotam pregos enferrujados por toda a extensão daquilo que meu olhar afagou. E perdoa menino se ás vezes te acordo chorando!

- Corre menino! Corre ou não verás...

Das vozes da terra e das vozes das águas, a voz dos vôos... O percurso dos saltos, as quedas e os sobressaltos... Mais tudo que é de doer em mim, e perplexidades minhas. E deslumbramento teu, menino! Teus olhinhos podem ver? Mais alguém aí, vê!

- Corre menino! Corre...

Todavia nada ou ninguém me redimirá. Donde os olhos do preá singraram para fora da existência, eu não tive forças para segurá-lo no existir. E agora sofro essa desatinada ausência.
Então corro em círculos. Corro por estar correndo para tão longe de mim.

- Corre menino, por nós. Corre pelas asas de teus pés. E pelas que tenho, brancas, brancas de quase em si se partir.